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terça-feira, 13 de junho de 2017

Malandra Maria do Morro da Mangueira ♣


"Delegado Chico Palha, sem alma, sem coração,
Não quer samba, nem curimba, na sua jurisdição." (Zeca Pagodinho)

Hoje venho falar de outra Maria, mais uma senhora do Morro, que por intuição e ordens de Navalha, quis me passar um pouco mais de axé, fundamento e aprendizagem,
A Maria de hoje é uma belíssima negra, antiga moradora do Morro da Mangueira, seu passado se funde com a história do Morro, com a história do samba, da cultura popular, das rodas de "macumba" antigas. Conhecedora de magias, aquela que conquistava a todos com ginga, requebrado e sobretudo inteligência. Muitos lhe subestimaram, foi ofendida e humilhada por tudo, pela cor de sua pele (racismo), pelo seu lindo cabelo afro (crespo), por sua devoção (Culto aos ancestrais), por seu amor pelo samba (proibido por muito tempo), enfim, são tantas dores dessa Maria, que um texto seria pouco. Gostava de disputas, Maria não era Maria vai com as outras, mulher de muita fibra e opinião, filha de Iansã, sempre benzida das roças e completamente bem vinda nas rodas, era a bamba das favelas, mas sempre teve humildade, o ego não lhe foi companheiro, mas não abaixava a cabeça para ninguém, todos lhe conheciam, lá vem a Menina de Oyá, Ventania na palhoça.

Sempre vestida com tons claros, principalmente a saia branca, uma hora era saia longa, impecavelmente engomada, rodada que só ela, falava e ria muito alto, quando seu orisá chegava, todos reverenciavam, a mãe dos ventos está ali, como é bela, essa bela Oyá.

No samba já usava uma saia um pouco mais curta, o que na época era um "ultraje social", lhe chamaram prostituta, rampeira, mau amada inúmeras vezes, apenas por ser independente, por não se dobrar aos homens ou por não obedecer as regras impostas as Mulheres. Maria nunca ligou, nunca mesmo, era tão senhora de si, que um bando de invejosas ou uns homens sem personalidade, nunca iriam lhe atingir. Continuava sua trajetória, bebida boa, batucada, samba bom, engoma saia da "santa", passa a roupa da patroa. Maria foi uma empregada doméstica, dessas que a gente pensa, como pode, mulher inteligente, forte, que argumenta bem, porque não tem cargo mais alto, não ganha mais. Como faltou oportunidade para Maria, mesmo com tantas dificuldades, ela é como nós, o povo do santo que sempre está feliz, louvando com fé as forças da natureza, acordando cedo todo dia, pegando o trem lotado para ir até a Central, de noite cai no samba, lá pelas tantas, já é carnaval.

Maria da Mangueira, não é Malandra qualquer, gosta que lhe chamem Malandra, não que mude chamar Malandrinha, mas o Malandra combina mais com sua idade, suas feições, sua roupagem fluídica. É Malandra jovem, não tão jovem assim, já não é menina, é mulher, é adulta, mais ainda soberana em suas escolhas, até depois da morte, ou "quase" morte, sabia como a vida seria do outro lado, só não sabia que ia receber essa linda benção de Deus, ajudar o próximo, fazer caridade, em honra aos seus (Orisás). Foi recebida com Maria Navalha com imensa alegria, festa e muito canjerê, reencontrou velhos amigos, soube das antigas rivais, a umbanda estava ali, oferecendo oportunidade e muita energia positiva.

Maria é velha conhecida do Zé Pelintra do Morro, uns dizem que foi amante, outros que foram amigos, tem gente que conta que foram comparsas, até parceiros no bailado eu ouvi falar, mas ele não se cansa de me dizer ...

"Que prenda bonita trouxe aqui pra você .."

"Pense numa Preta bonita .."

Muito requisitada quando o assunto é para ser resolvido para ontem, é boa de briga e perigosa, não utilizava muitas armas, então sempre foi mais de punho firme e direcionamento, é aquela que com um só golpe já derrubava quem lhe desafiava, e o mistério dessa moça está no samba, está na ginga, samba pra lá, samba pra cá, cuidado com o feitiço dessa nêga, foi assim que ela encantou toda a Mangueira. Era adepta de práticas ocultas, era assim que cuidava de seus inimigos, seus débitos vem disso, mas isso é assunto para outro texto, rs.

Mirongueira como ninguém, quem tem essa Malandra guarda muito axé, guarda mistérios, fundamentos, uma força que vem de lá, ela é dendê puro, cuidado, muito cuidado rs.

*Curiosidade 1 - Morro da Mangueira, foi apenas o lugar de encarnada, sua falange dentro da Linha da Malandragem é o Morro, entidades quando determinam o nome do Morro é para apontarem onde findaram sua existência, sua trajetória de encarnado (muito provável na última encarnação). Ela pode se apresentar como Malandra do Morro ou Malandra Maria do Morro (apenas). Varia conforme as regras do terreiro, a entidade querer, permissão da espiritualidade, uma série de fatores.

*Curiosidade 2 - Eu coloquei um trecho da música do Zeca Pagodinho, apesar de ser uma música muito atual, fala da época que o samba era reprimido socialmente, muito rechaçado. Divulgarei a música na próxima postagem.

Espero que tenham gostado,
Salve a Malandra Maria do Morro da Mangueira,
Salve a Malandragem. ♣ 




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