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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A Malandragem e a Capoeira :






A Capoeira é uma expressão cultural brasileira que mistura arte-marcial, esporte, cultura popular e música.

Desenvolvida no Brasil principalmente por descendentes de escravos africanos com alguma influência indígena, é caracterizada por golpes e movimentos ágeis e complexos, utilizando primariamente chutes e rasteiras, além de cabeçadas, joelhadas, cotoveladas, acrobacias em solo ou aéreas.

Uma característica que distingue a Capoeira da maioria das outras artes marciais é a sua musicalidade. Praticantes desta arte marcial brasileira aprendem não apenas a lutar e a jogar, mas também a tocar os instrumentos típicos e a cantar. Um capoeirista experiente que ignora a musicalidade é considerado incompleto.

A palavra capoeira é originária do tupi-guarani, refere-se às áreas de mata rasteira do interior do Brasil. Foi sugerido que a capoeira tenha obtido o nome a partir dos locais que cercavam as grandes propriedades rurais de base escravocrata. Capoeiristas fugitivos da escravidão e desconhecedores do ambiente ao seu redor, frequentemente usavam a vegetação rasteira para se esconderem da perseguição dos capitães-do-mato.

Outras expressões culturais, como o maculelê e o samba de roda, são muito associadas à capoeira, embora tenham origem e significados diferentes.

Atualmente

Hoje em dia, a capoeira se tornou não apenas uma arte ou um aspecto cultural, mas uma verdadeira exportadora da cultura brasileira para o exterior. Presente em dezenas de países em todos os continentes, todo ano a capoeira atrai ao Brasil milhares de alunos estrangeiros e, frequentemente, capoeiristas estrangeiros se esforçam em aprender a língua portuguesa em um esforço para melhor se envolver com a arte. Mestres e contra-mestres respeitados são constantemente convidados a dar aulas especiais no exterior ou até mesmo a estabelecer seu próprio grupo. Apresentações de capoeira, geralmente administradas em forma de espetáculo, acrobáticas e com pouca marcialidade, são realizadas no mundo inteiro.

O aspecto marcial ainda se faz muito presente e, como nos tempos antigos, ainda é sutil e disfarçado. A malandragem é sempre presente, capoeiristas experientes raramente tiram os olhos de seus oponentes em um jogo de capoeira, já que uma queda pode chegar disfarçada até mesmo em um gesto amigável.

Símbolo da cultura afro-brasileira, símbolo da miscigenação de etnias, símbolo de resistência à opressão, a capoeira mudou definitivamente sua imagem e se tornou fonte de orgulho para o povo brasileiro. Atualmente, é considerada patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.






Capoeira é coisa de Malandros ?

O senso comum costuma associar a capoeira, principalmente até as primeiras décadas do século XX no Rio de Janeiro, como atividades de malandros e de categorias sociais que orbitavam em torno de um ambiente de boemia. Exemplos para isso não faltam: de Manduca da Praia, capoeira que viveu no início do século no Rio e que soube traçar relações proveitosas com figuras de elite que o mantiveram fora da cadeia; até Madame Satã, personagem lendária da região da Lapa que soube enfrentar o preconceito contra o homossexualismo a base de muitas navalhadas e rabos de arraia. No entanto, nem só do universo da rua e da malandragem a capoeira do Rio se alimentou no início do século. Ainda nos anos 1920, uma capoeira voltada para filhos da elite carioca despontou e fez escola pelas mãos de Agenor Moreira Sampaio, o Mestre Sinhozinho de Ipanema.

Trecho do Texto Brilhante ,escrito por Vivian Fonseca,retirado do site :





(Manduca da Praia)




Zé Pelintra e a Capoeira 

Não é segredo pra ninguém que boa parte da cultura brasileira descende da mãe África. Observamos na religiosidade, na música, na comida, nos costumes, etc..., uma forte influência daqueles que vieram ao Brasil como escravos e acabaram por se misturar aos outros habitantes, nativos ou não, para formar o povo que hoje chamamos de brasileiro.
Por isso, podemos dizer que a capoeira, o samba, o maracatu, a capoeira, a umbanda e o candomblé, o frevo e tantas outras manifestações culturais são fruto dessa mistura, algumas mais influenciadas pelo lado indígena, outras pelo lado europeu, a maioria delas pelo lado africano. A miscigenação criou uma cultura mestiça.

Na Umbanda, por exemplo, encontramos Zé Pelintra que é um forte exemplo dessa mestiçagem: o malandro, negro de terno branco e punhal de aço puro, mestre do Catimbó (um culto nordestino de origem indígena), sambista e capoeirista. É um fiel representante de uma cultura africana resistente e sobrevivente em solo brasileiro. Nordestino ou carioca, praticante do Catimbó, da Umbanda ou do Candomblé, anda sempre com suas guias dedicadas a seu Orixá no pescoço - diz-se em um de seus mais famosos pontos da Umbanda e Catimbó, que "foi criado por Ogum Beira-Mar, em nome de Deus e de todos Orixás". Na aba de seu chapéu, encontramos ainda uma pena vermelha, uma homenagem ao Orixá mensageiro Exu. 



Zé Pelintra e Mestre Leopoldina: o mestre era um grande devoto de Seu Zé 



Seu Zé, como é carinhosamente chamado por seus admiradores, é também um conquistador nato. Conhecedor da noite e dos perigos da vida, anda sempre com seu lenço no pescoço e sua navalha alemã no bolso.

Não é preciso ser capoeirista para saber que muito dessa personalidade de Seu Zé, está ligada também à personalidade histórica do capoeirista. Se retornarmos para um segundo momento na história da capoeira, pós-abolição, vamos encontrar entre os praticantes da arte justamente os malandros, que, sendo exímios capoeiristas, sabiam como escapar de qualquer perigo e estavam sempre atentos ao caminhar pelas ruas. Os capoeiristas também sempre foram "conquistadores natos" do mulherio.
Ainda que afirmar isso nos idas de hoje seja tão polêmico, era no passado também muito natural que os praticantes da capoeira fossem praticantes de alguma religião afro-brasileira, uma vez que essas religiões estão fortemente ligadas ao universo de onde eles e a própria capoeira vieram. Mais do que uma simples prática, a religiosidade do povo africano não é apenas vivida no espaço de um terreiro ou um templo, é algo levado para o dia a dia, não é só uma religião, mas também uma forma de viver e de ver o mundo. E se hoje o preconceito é grande, imagine então naquela época... 



Um pouco mais a frente na história, encontramos entre os angoleiros figuras tão malandras quanto Seu Zé, principalmente na capoeira Angola, onde os malandros chegavam em seus ternos impecáveis, chapéu de lado, e jogavam sem que uma mancha de poeira sequer maculasse o branco de suas roupas. 



Vários pontos do malandro Zé Pelintra tratam de sua relação com a capoeira, como esse: 


"moça não tenha medo do seu marido
se ele é bom na faca, eu sou no facão
se ele é bom na reza, eu na oração
se ele bate em cima, eu vou na rasteira
sou da capoeira" 



Tais pontos - ponto é como se chama uma cantiga na Umbanda - falam do mundo de Seu Zé, um mundo cheio de perigos, mas também cheio de diversão. Tal qual a capoeira: numa roda um capoeirista pode se divertir, mas sabe dos perigos que enfrentará. E é aquele que melhor usar a malandragem que conseguirá se sair melhor na roda, escapando das rasteiras e das investidas "na maldade", como se diz na capoeira, dos outros jogadores.

A tão famosa "mandinga", uma energia quase palpável na capoeira, que todo capoeirista já sentiu, é uma energia herdada dessa época em que era preciso mais do que esperteza e habilidade no jogo, mas também - opinião própria - uma proteção espiritual para o capoeira. Negro, pobre de recursos materiais, mas rico de recursos culturais, e discriminado, perseguido pela polícia, pelo preconceito, por outros capoeiristas... A mandinga é uma energia que vem da época em que o negro escravo precisava fugir da senzala e lutar pela liberdade e para isso contava com um auxílio divino. Então, por mais incrível que pudesse parecer, o escravo e o malandro conseguiam escapar das mais inacreditáveis situações... 

Este é um assunto bastante complexo e espero voltar a tratar dele em breve. Para finalizar, por hoje, digo que a mandinga e a malandragem sempre serão pilares básicos nos fundamentos da capoeira. Espero que tenham bom senso e leiam este texto livres de preconceitos e mesquinharias... Axé!



A FACE MALANDRA DA CAPOEIRA

Um dos valores mais fortes presente na personalidade dos capoeiristas é a malandragem. Ela é a virtude que ajuda o capoeira a se sair bem das "saias justas", seja na Roda, seja na vida. A malandragem na Capoeira é alçada quase que como um "dom divino", ao lado da famosa mandinga, a proteção espiritual dada a poucos capoeiristas.
A malandragem está presente na Capoeira desde os seus primórdios. Com o fim da escravidão, uma multidão de escravos recém libertos se dirigiu para as áreas urbanas, criando comunidades. A falta de apoio do governo, que simplesmente libertou os escravos das fazendas, mas não lhes ofereceu uma nova forma de ganhar a vida, fez com que essas comunidades já nascessem na miséria.
Nesse ambiente, surge a figura do malandro, sempre em seu terno impecável de linho branco, seu chapéu de lado, bom no batuque e na capoeiragem, arrumando as mais variadas confusões, sempre escapando da polícia e arranjando formas alternativas de ganhar a vida. O malandro, com seu jeito descolado de ser, representa a figura do negro que conseguiu se sobrepor a um destino de pobreza a que parecia estar fadado. É o estereótipo do homem que consegue, com uma ginga de corpo na vida, escapar e se dar bem em várias situações em que tudo parece estar perdido. Homem namorador, que deixa corações apaixonados por onde passa.
Essa malandragem é o que fez a Capoeira sobreviver as repressões policiais e chegar tão forte aos dias de hoje. Foi a esperteza dos malandros, sempre escapando da polícia, que garantiu a sobrevivência da atividade nos primórdios da República. Mestre Bimba e Mestre Pastinha foram sublimes malandros ao conquistar as classes mais altas e acadêmicas, descriminalizando a Capoeira e a afirmando junto a toda a sociedade, que a discriminava e reprimia. E, se voltarmos ainda a época da escravidão, veremos que uma primeira nuance dessa malandragem foi que permitiu ao negro praticar sua luta, habilmente disfarçando-a em dança. Com esse mesmo espírito, o negro conseguia, numa distração dos feitores, fugir para a mata, escapar dos capitães do mato e encontrar os secretos Quilombos.
A malandragem é uma das principais características da Capoeira.
Num contexto ainda maior, a malandragem é a arma com a qual os negros, e as classes menos favorecidas em geral, sobrevivem ao mundo cruel das classes dominantes. Com seu jogo de cintura, o malandro sai por cima daqueles que, equivocadamente, acreditam dominá-lo.

(Soldado Capoeira)

Vejam, para efeito de estudo, alguns textos interessantes sobre alguns malandros… Esse de João Mina é uma raridade,  um texto muito importante para quem quer aprender os fundamentos da capoeiragem. O de Madame Satã também, conta em poucas palavras a história dele e nos mostra um pouco do ambiente de um Rio de Janeiro cheio de malandragem… Aproveitem!

JOÃO MINA

João Mina quer ver Muleque Bimba na boa capoeiragem
João Mina

Publicado originalmente no jornal Estado da Bahia, em 15 de março de 1948

A notícia divulgada pelo Diários Associados de que o mais famoso capoeirista baiano, Muleque Bimba, que dirige uma escola dessa briga, tornada nacional, pretende vir ao Rio fazer exibições públicas dos nove cortes que inventou, causou sensação entre os profissionais da defesa pessoal. Existe mesmo um movimento para que se efetive a vinda de Muleque Bimba, o sexagenário que ensina a muitos moços de sua terra os golpes sinistros da capoeiragem, sabendo-se até que já foi seu aluno o hoje deputado Juracy Magalhães.
Entre nós, João Mina é o mais velho dos três últimos remanescentes da já remota época das batucadas e capoeiragens que até o primeiro quartel deste século perturbaram a ordem e a tranquilidade públicas. Tem mais de sessenta anos o preto velho e arrasta seus atuais pesados dias ali pelo Estácio.

- Está aqui neste seu criado - diz João Mina para o repórter numa tendinha do morro - um negro que fazia batuque e capoeira no morro da Favela, que é o lugar que nasceu o samba no Rio. Batuque quem fazia era negro de macumba, negro bom de santo, bom de garganta e, principalmente, bom de perna para tirar outro da roda. Tinha batuque todo dia na favela, com a negrada metendo a perna e jogando parceiro no chão, até a polícia chegar. Aí, então, como num passe de mágica, a batucada virava samba, entrando as mulheres dos batuqueiros na roda. Homem não dançava samba. Samba é nome de filha de santo, mas todo mundo de fora que subia o morro procurando mulher, dizia que ia ver samba e por samba ficou a dança que elas dançavam e que era batuque mais mole e bem remexido - era coco.
Assim que a polícia saía, o batuque continuava e os batuqueiros entravam duro na capoeiragem. Pobre do moleque que cochichasse quando o batuqueiro cantasse:

Olha banda
Olha a banda
Negro da ronda


Podia contar que ia levar uma boa jogada, quer dizer, rápida e violenta pernada que o atirava fora da roda, principalmente se tivesse mulher boa perto dele. Mas se o muleque saísse dessa, o batuqueiro sem perder o ritmo do batuque emendava:

Batuqueiro novo
Dava um baú
Pra não perdê o amô...


A banda jogada passava pra banda de frente e o batuque soltava logo um baú no parceiro, atirando o muleque no chão, pelas costas.
Outro corte ruim de defender, pra batuqueiro novo, era a tiririca, quando o mestre cantava:

Tiririca é faca de cortar
Quem não pode não intimida
Deixa quem pode intimá...


Um pé ficava no chão e o outro subia virando com força no pé do ouvido do parceiro. Mas a capoeiragem tinha muitos cortes ruins. Tinha o dourado, a encruzilhada, tinha o rabo de arraia...
- Sim, João Mina, o fulminate rabo de arraia...
- Pois é, meu filho, o rabo de arraia...
Os outros que ouviam, reverentes, a palestra do velho João Mina, fizeram um sinal negativo para o repórter. O homem da tendinha serviu umas doses de cachaça e João Mina continuou:
- Batuqueiro bom brincava na frente do fandango e caninha verde, no carnaval, abrindo ala como se faz hoje diretor de corda de escola de samba. Batuqueiro bom brincava de noite na Praça Onze de Junho, que já foi reduto enfezado de gente do morro.
Um dia, os batuqueiros da Favela tiveram uma arrelia. Houve então, uma separação. Os grandes ficaram na Favela e os outros foram para o morro de Santo Antonio. Casaca de Bronze, capoeira de respeito e capanga de político, uma noite, ninguém sabe porque, nem por ordem de quem, botou fogo em tudo quanto era barracão do morro de Santo Antonio e fugiu, fugiu que até hoje não se sabe notícias dele.
A negrada que ficou sem barraco no morro de Santo Antonio foi toda para o Morro da Mangueira, os homens fazendo batuque e as mulheres sambando. O lugar onde eles levantaram os barracos ficou sendo chamado o Santantoinho de Mangueira. Depois é que vieram para a Estação, Querosene, Salgueiro. Apareceu o samba mesmo, quando Epitácio Pessoa mandou mudar o mulherio da Glória e da Lapa para a Cidade Nova.
Mas por aí, Sampaio Ferraz e Alfredo Pinto tinham dado cabo de muito batuqueiro, de muito moleque de capoeiragem. Isso de escola de samba é coisa nova, coisa boa, de preto, político trabalhador, que não quer mais saber de malandragem, nem de pernada.
João Mina rematou:
- Pois é menino, eu tinha vontade de ver esse tal moleque Bimba, para me lembrar dos velhos cortes do meu tempo...Será que ele briga mesmo?
Descemos o morro e Tancredo Silva, que apesar de moço, é o terceiro dos remanescentes, dissemos:
- Bernardo Sapateiro faltou ao encontro. Ele, que é daquele tempo, ia contar porque João Mina não quis falar do rabo-de-arraia.
- Você não sabe?
- Dizem que numa batucada na Praça Onze, num carnaval, João Mina deu um rabo de arraia num sujeito e ele morreu ali mesmo. João Mina foi para a Detenção e ficou na sombra uns anos. Quando voltou, trouxe a cuíca e nunca mais quis saber de batucada. Era só cuíca. E a batucada virou samba. Depois, Edgard trouxe o tamborim.
Na rua do Estácio, Tancredo Silva ainda disse:
- Olha, menino João não falou que, quando o batuque enfezava, os batuqueiros cantavam:

É ordem do Rei p'ra matar.
É ordem do Rei p'ra matar.


E o rabo de arraia comia solto até morrer o parceiro que estava condenado pela negrada. Essa ordem do Rei entre os batuqueiros vem do tempo em que o Brasil era Reinado e que a capangada tinha ordem para acabar com os pretos que conspiravam.


(Retirado do livro Encontros: Capoeira, de Frederico José de Abreu e Maurício Barros de Castro, editora Azougue Editorial.)

                                              MADAME SATÃ

Madame Satã, o capoeirista João Francisco dos Santos, nasceu no "Morro do Estácio", pelos anos de 1900, no Rio de Janeiro. De família humilde, se criou no porto carioca, onde aprendeu batuque com estivadores negros, descendentes de escravos angolanos, destacando-se seu mestre Gavião, companheiro de Edgar e "Meia Noite".
O maltas cariocas e Guaiamús foram gradativamente extintos com suas gangues, pelo anos de 1908 a 1910, pela polícia. Os que não foram mortos pelos polícias, morreram nos presídios. A figura do capoeirista vadio, malandro, que foi imortalizado pelos sambas da época: "Meu chapéu de lado, tamanco arrastado, como trote de cavalo, lenço de seda no pescoço, navalha alemã no bolso, com caminhar gingado, tomou conta do carioca provocador e eu tenho orgulho de ser vadio". O novo vadio andava sozinho, não mais em gangues, mas temido por sua valentia e violência sutil, zanzando pelos bares da boêmia portuária e morando nos cortiços. Com esta nova postura, o vadio não demonstrava ser uma ameaça, como nos tempos dos maltas. Do Império a República, os capoeiristas foram quase extintos, enquanto que o Estado Novo foi mais tolerante.
Nesta época que surgiu João Francisco, um negro de 1,90 m pesando quase 100 kg de músculos, cabelos longos alisados, elegante, costumava usar pantalona branca, camisa de seda italiana com cores exuberantes, com um grande tamanco de cara de gato. Desde os treze anos vivia nas noites da boêmia da Lapa, sobrevivendo de pequenos furtos, a favores libidinosos com marujos europeus, o que lhe garantia a sobrevivência.
Durante muito tempo foi leão de chácara de cabarés, botequins e cassinos. Quase diariamente se envolvia em brigas, onde mostrava sua destreza, foi quando foi convidado para integrar o grupo de bailado na figura do transformista "Mulata Balacochê", no cabaré "Cu da Mãe" onde logo se destacou, sendo muito aplaudido. Com contrato na bolsa, carteira assinada e salário certo todo fim de mês, além de gordas gorjetas colocadas no seu sutiã, terminavam as batidas policiais por vadiagem, com as brigas com os valentes.
Até que certo dia deparou-se com o marginal "Alberto 28", que lhe aplicou uma coronhada na cara, seguido de palavrões: " veado, puto, marica", etc.
João Francisco se conteve para não perder a oportunidade de ascensão, e se dirigiu para seu quarto de pensão. Ao chegar em seu quarto deparou-se com seu espelho, o rosto ensanguentado, e, as lágrimas se esvaindo em cascata. Foi em busca de "Alberto 28" e com um 38 acabou com um tiro na testa de seu desafeto.
Como recompensa, foi preso e encaminhado para o Instituto penal Cândido Mendes, na Praia de Dois Irmãos, na Ilha Grande, ligada ao município de Angra dos Reis, no sul do litoral do Rio de Janeiro. Esta penitenciária foi construída em 1940, onde eram mandados os capoeiristas desordeiros da época e os presos políticos e criminosos perigosos. Nesta cidadela João Francisco, por dezenove anos, foi preso. Implantou a capoeira na penitenciária, tornando-se uma grande liderança, sendo respeitado por todos.
João Francisco dividiu sua vida em Pigalle, a Casa Nova, o incrível "Cu da Mãe" e o cassino High Life. Recebeu da noite o apelido de "Madame Satã" por sua valentia e o domínio dos golpes de capoeira em sua pernas. Em uma oportunidade matou um malandro, o sambista Geraldo Pereira de mais de 1,90 m, com um soco na nuca.
O rei da vadiagem, Madame Satã, viveu de 1900 a 1976. Morreu, em total miséria, num quarto de cortiço, por enfarte do miocárdio. Mestre Paulo Gomes e Artur Emídio, nos últimos tempos de sua vida, foram um dos poucos amigos que o ajudaram em sua sobrevivência.
João Francisco derrubou com sua canhota, suas navalhas e suas precisas bandas e rasteiras muitos vadios de sua época. O estereótipo do homossexual frágil, efeminado, foi derrubado, pois era mais macho do que muitos homens de sua época. Capoeira não tem preconceito, preconceito é fruto da ignorância.


Bibliografia:
Crônica do jornalista Ronaldo Ribeiro;
Entrevista com o ex-presidiário Júlio de Almeida, que após 68 anos de prisão mora com sua família na Ilha.
Em 1986, tive a oportunidade de visitar a Ilha e conhecer vários moradores.
Entrevista com Edir Virgílio de Lima, o "Dica", funcionário do presídio que hoje vive da pesca e colhendo bananas e abacaxis.
Crônica do Mestre Nestor Capoeira na revista capoeira número 7
Entrevista com o Mestre Paulo Gomes

Contato: Dr. Luiz Carlos K. Rocha:
Tel.: (49) 323 1503

(retirado da revista Praticando Capoeira Ano II, Nº 21 , por Dr. Luiz Carlos Krummenauer Rocha, antropólogo, historiador, filósofo, teólogo, museólogo, phd em sociologia, presidente da Federação Catarinense de Capoeira e da Liga Oeste de Santa Catarina)

Estes brilhantes Textos são da Autoria,ou idealização de Soldado Capoeira,e foram retirados do seu Site :










Cantiga de Capoeira antiga
Capoeira Music song: Malandragem
autor: Professor Capu (Gingado Capoeira)






Malandragem só sai daqui
Quando essa roda acabar
Se o meu mestre disser Iê
Ou se Cavalaria tocar

Capoeira é antiga arte
Foi o negro inventando
Me diga quem é brasileiro
E não tem um pouco de malandro
Malandragem

Oi malandro, é malandro
Capoeira
Oi malandro, é malandro
Na Bahia
Oi malandro, é malandro
Na ladeira
Oi malandro, é malandro
Malandragem
Oi malandro, é malandro

Ê, finge que vai mas não vai
Bicho vem e eu me faço de morto
Mas se a coisa apertar
Pra Deus eu peço socorro

Entro e saio sem me machucar
Subo e desço sem escorregar
Vou louvando o criador da mandinga
O malandro que inventou a ginga
E a malandragem

Oi malandro, é malandro
Capoeira
Oi malandro, é malandro
Na Bahia
Oi malandro, é malandro
Na ladeira
Oi malandro, é malandro
Malandragem
Oi malandro, é malandro 

O sol faz o chão esquentar
Calma moça, chuva vem esfriar
Expressão do rosto da menina 
Ao saber que essa é a minha sina

Bato forte não devagar
Cuidado quando se levantar
Berimbau já fez sua cantiga
Coração me impulsa pra cima 
E a malandragem.




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